Depois que eu envelhecer ninguem precisa mais me dizer
Como e estranho ser humano nessas horas de partida
E o fim da picada, depois da estrada comeca uma nova avenida
No fim da avenida, existe uma chance, uma sorte, uma nova saida
Sao coisas da vida
E a gente se olha, e nao sabe se vai ou se fica
Vespera de feriado. Na mesa um vaso branco de gerbras amarelas e velas. Calice de um bom vinho de Rioja. Outro com agua. Um livro a minha esquerda e um teclado em meus dedos sedentos.
E quase solidao aqui de noite. Me encontro so. Mas a ausencia so me traz maiores companias. E so assim posso me entregar aos meus pensamentos que por tantas vezes ficam abandonados no meio de tanta bagunca.
Como e que podemos medir mesmo o tempo?
Alem da era digital. Alem dos ponteiros. Das sombras no deserto ou dos graos de areia compassados pela bussula.
Alem de rugas. Aquem de cabelos brancos ou ate mesmo da falta deles.
Como e que medimos o tempo? Os sonhos que ficaram pra traz e os que realizamos sem perceber?
Certo dia acordamos. Certo dia percebemos que sonhos foram vividos. Outros esquecidos. Outros nem tao importantes. Outros mudados. Outros com um peso maior de responsabilidade, e quase na maioria das vezes coloridos com o preto e branco da realidade.
Nos tempos da Universidade eu e minha melhor amiga tinhamos um hino. A musica era Coisas da Vida de Rita Lee. Ate hoje quando vejo a lua cheia brilhar lembro das liricas. Lembro do frio na barriga de quem estava apenas comecando. Lembro da sensacao de um livro aberto. Paginas em branco folhadas ao sabor do vento. Posso sentir a brisa de verao tocando meus cabelos. Lembro de como me achava feia. De como era insegura.
De la pra ca, as vezes nao me reconheco mais, e ja nao sei mais se sou eu mesma- a imagem refletida no espelho.
O que me foi acrescentado? E o que me foi tirado?
A nostalgia que sinto daqueles dias ardem a alma. Mas nao poderia ter vivido neles pra sempre. Faz parte da sina humana- deixar pegadas pelo caminho.
"E a gente se olha e nao sabe se vai ou se fica..."
As vezes so se tem uma saida. Nao olhar pra traz. Noutras, a salvacao esta em olhar com calma para tudo o que passou. Mastigar com suavidez cada momento e ser mais uma vez as pegadas no caminho.
Em noites assim, de vesperas, de vinhos e velas, sigo minhas pegadas e nelas vejo tantas cores belas. Aromas. Sorrisos. Canticos. Abracos. A nostalgia me embriaga e lagrimas brotam de um rosto sedento.
Duas amigas de infancia escolheram casar no mes de abril. Uma, casa no Brasil. Na Catedral de Santa Cruz, santuario tao familiar. Outra casa aqui, em Londres.
A vida as vezes prega peca na gente. Revira a caixinha de recados...
A Maris era uma princeza, sonhavamos juntas. Escreviamos a nossa historia. Sempre tao romantica...Agora ja 5 anos na estrada, tao poucas vezes nos vimos, mas lembro que o brilho no olhar ainda estava la. Estava la a cumplicidade. Uma dor pelo tempo perdido. Pela falta de tempo para poder reaver tanto assunto. Para juntar tantas pegadas.
A Ingrid, que deixei escapar por dez anos, e que atravessou o oceano e caiu na minha vida de paraquedas quando ja nem esperava mais nada das amizades e se tornou minha irma de verdade, num Reino Unido, que muitas vezes nos soa tao desunido.
As duas escolheram casar em Abril. Nao sei porque, mas isso me fez pensar no tempo. Me fez senti-lo percorrendo por minha pele com mais intensidade. O tempo e a falta dele. As pessoas que amamos e que seguem diferentes rumos na vida. Que sonham e realizam.
Ana Frantz
E a gente se olha e nao sabe se vai ou se fica
Qual e a moral? Qual vai ser o final dessa historia?
Eu nao tenho nada pra dizer por isso digo
Que eu nao tenho muito que perder por isso jogo
Eu nao tenho hora pra morrer por isso sonho
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